Todo o caminho até o rio (Elizabeth Gilbert)
- A leitora Clássica

- 20 de nov.
- 12 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
Eu não sou uma leitora de lançamentos. Isso já se tornou uma regra auto imposta. Prefiro deixar aquele momento de recepção da obra passar, seja para não me “contaminar” pelo excesso de euforia de alguns leitores, ou pelo de críticas, mas uma obra ou outra acaba me fazendo burlar essa critério pessoal e foi o que aconteceu com Todo o caminho até o rio, novo livro de Elizabeth Gilbert, mesma autora do famoso Comer, rezar, amar.
O que me fez adquirir esse livro, lançado recentemente, foi a temática abordada. É uma obra que trata da CODEPENDÊNCIA ou como a autora chama nesse seu romance autobiográfico, o vício em amor e sexo, ou simplesmente (mas nada simples ), o vício em pessoas .

A codependência está praticamente no DNA da minha família e só quem conviveu ou convive com pessoas viciadas (seja qual for o objeto desse vício), sabe o quanto o comportamento destrutivo do outro pode afetar drasticamente a sua própria vida.
Sem muitos detalhes porque não é relevante para esse texto, mas apenas para demonstrar meu interesse no tema, meu pai (ele já quebrou o seu anonimato ao falar abertamente sobre seus vícios nas redes, inclusive no YouTube e, por isso, menciono aqui) é um viciado (ou, para usar o termo que ele prefere, um adicto em recuperação de álcool e pornografia e que, já idoso, recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar) e minha mãe, uma codependente.
Foi, muitas vezes, tentando entender a conduta de minha mãe que o tema codependência entrou na minha vida.
Desde muito criança percebi que o comportamento dos meus pais não eram dentro de um padrão que se pudesse chamar de normalidade e as disfunções ficaram muito evidentes ao longo dos anos.
Meu primeiro contato com essa temática foi através da leitura do livro Codependência nunca mais de Melody Beattie (praticamente um clássico sobre o assunto e que, em 1986, apresentou o termo codependência ao mundo). Nesse livro, além de definir a codependência, ela cita as características de um codependente, o que me fez entender um pouco o comportamento dos meus pais.
Em seu livro, Elizabeth Gilbert fala dele, do seu vício em pessoas, de uma forma crua e direta, contando fatos absurdamente assustadores para quem desconhece o comportamento de um adicto. Não é, definitivamente, um livro leve ou bonito ou poético, nem se propõe a ser.
Engraçado que o filme Comer, rezar, amar faz parte da minha lista de "filmes de conforto". Já perdi as contas de quantas vezes o assisti. Gosto de praticamente tudo nele, exceto o final. Nunca aceitei muito bem aquele final.
Como assim ela termina a sua jornada de autodescoberta indo embora com um homem (um brasileiro ) que acabara de conhecer em Bali ?
Sempre me pareceu contraditório porque no início do filme, quando ela sai de um casamento esgotado e passa por um divórcio difícil, ela comenta que seu erro foi ter entrado rapidamente em outro relacionamento. Ela mergulha de cabeça em uma relação intensa com David e mesmo reconhecendo que seu problema era estar sempre envolvida com alguma obsessão amorosa, se sente pronta para entrar em outra relação com um homem recém - chegado à sua vida.
Esse final me soava muito mais a uma fuga do que um encontro, e de certa forma, era.
Na busca por uma cura interior, ela acaba encontrando outra pessoa para se apoiar, e isso é tudo que um codependente quer.
O codependente só sabe existir se tiver alguém como centro da sua vida; alguém a quem ele esteja se doando até a exaustão; alguém a quem ele esteja “salvando", mas o que ele procura mesmo é o amor, a atenção, a validação e a aprovação (ou, na sigla em inglês, lava — love, attention, validation, approval), coisas que ele não sabe prover a si próprio .
LAVA - LOVE - ATTENTION - VALIDATION - APPROVAL . Essa é a verdadeira busca de um codependente não tratado e também de um viciado em amor e sexo.
Em Comer, rezar, amar seu vício em pessoas já estava nítido. Veja o que ela escreveu em seu best - seller 19 anos antes:
“O fato é que eu havia me viciado em David (em minha defesa, posso dizer que ele havia possibilitado isso, já que era uma espécie de homem fatal) e, agora que sua atenção estava desaparecendo, sofria as consequências facilmente previsíveis. O vício é a marca de toda história de amor baseada na obsessão. Tudo começa quando o objeto de sua adoração lhe dá uma dose generosa, alucinante de algo que você nunca ousou admitir que queria – um explosivo coquetel emocional, talvez, feito de amor estrondoso e louca excitação. Logo você começa a precisar dessa atenção intensa com a obsessão faminta de qualquer viciado. Quando a droga é retirada, você imediatamente adoece, louco e em crise de abstinência (sem falar no ressentimento para com o traficante que incentivou você a adquirir seu vício, mas que agora se recusa a descolar o bagulho bom – apesar de você saber que ele tem algum escondido em algum lugar, caramba, porque ele antes lhe dava de graça). O estágio seguinte é você esquelética e tremendo em um canto, sabendo apenas que venderia sua alma ou roubaria seus vizinhos só para ter aquela coisa mais uma vez que fosse. Enquanto isso, o objeto da sua adoração agora sente repulsa por você. Ele olha para você como se você fosse alguém que ele nunca viu antes, muito menos alguém que um dia amou com grande paixão. A ironia é que você não pode culpá-lo. Quero dizer, olhe bem para você. Você está um caco, irreconhecível até mesmo aos seus próprios olhos. Então é isso. você agora chegou ao ponto final da obsessão amorosa - a completa e implacável desvalorização de si mesma” (Trecho de Comer, rezar, amar)
Mas voltemos ao livro . Este livro. Nele, Elizabeth nos conta a sua história com Rayya, sua cabeleireira que acabou se tornando sua grande amiga e por último, sua amante e companheira.

Rayya também era uma viciada. Seu vício era em substâncias (drogas, álcool, medicamentos controlados, etc). Elizabeth começa nos dando essa informação porque, no decorrer do livro, ela vai mostrar que não existe uma hierarquia entre vícios do mais ao menos danoso. Tanto o vício em substâncias quanto os chamados vícios comportamentais (sexo, jogo, redes sociais - esse último é, claramente, um vício comportamental que tem adoecido muita gente em busca de LAVA nos dias de hoje) podem, e inevitavelmente irão, causar danos, por vezes, irreversíveis para o próprio viciado e para as pessoas de sua convivência .
Todo viciado, fatalmente, vai experimentar aquela sensação terrível de fundo do poço e raramente ele vai sozinho. Fundo do posso, também chamado de “colapso do ego em profundidade “ ou "colapso total do eu".
Esse é o estágio que todo viciado atinge para dar o primeiro e mais importante passo para uma recuperação, que é SE RECONHECER IMPOTENTE DIANTE DO VÍCIO, seja ele qual for.
Essa é a tônica do livro. Elizabeth não se coloca, e nem coloca Rayya, em um papel de vítima ou vilã , mas no de uma pessoa DOENTE.
E como ela mesma escreveu
“O vício é uma doença da mente “
Algo que esse livro mudou no meu modo de ver a codependência foi que eu sempre entendi o codependente como o dependente do adicto e não como, ele próprio, um adicto em pessoas.
É mais comum ver um codependente se associando a pessoas com outros vícios porque o adicto em pessoas precisa que o outro PRECISE DELE . Os viciados como são, geralmente, pessoas em estado de vulnerabilidade, ativa a codependência no adicto em pessoas, já que ele se apresentará como o salvador, a pessoa que resolverá todos o problemas, a pessoa necessária e imprescindível na vida do outro, mas desde que o outro o ame, valide, aprove e dê sentido à sua existência.
Essa (co) dependência afetiva é um dos mais complexos e difíceis tipos de escravidão, de servidão emocional. Ela torna o amante incapaz de julgar com clareza, tomar decisões livres e de ter autodomínio.
No século XVII, o filósofo René Descartes em seu livro "As paixões da alma" de 1649, já nos alertava sobre a necessidade de conhecermos e nomearmos as paixões que decorrem da alma para assim, governá-las através da razão .
Ele fará uma distinção entre as almas fortes e fracas, não no sentido de que somente as almas fracas sentem paixão. As paixões são naturais do ser humano e, por isso, é preciso entendê-las, mas as almas fortes não perdem o domínio da razão quando as sentem , diferente das almas fracas que se submetem a elas.
Ele vai dizer que as almas fortes são aquelas em que a vontade pode facilmente vencer as paixões e deter os movimentos do corpo com armas próprias e, por armas próprias, ele entende ser juízos firmes e determinados sobre o conhecimento do bem e do mal, segundo os quais a pessoa resolveu conduzir as ações de sua vida. Essas armas (juízos firmes para a condução da própria vida) estão ausentes nas almas fracas. Nas almas fracas a vontade “se deixa levar continuamente pelas paixões presentes que, sendo muitas vezes contrárias umas às outras, a puxam, cada uma por sua vez, para seu partido e, empregando-a para combater contra si mesma, atiram a alma ao estado mais deplorável em que possa subsistir.”
Ou seja, Descartes, muito antes da psicologia moderna e da psicanálise, já percebia que, para algumas pessoas, as paixões as fazem abandonar o próprio julgamento, ou seja, a pessoa age contra a sua própria razão.
É exatamente isso que vemos descritos em Todo o caminho até o rio . O vício da autora, a sua forma obsessiva e disfuncional de se relacionar, a levou a perder completamente a sua autonomia, a gerência da própria vida, cedendo emocional, afetiva e financeiramente às vontades de outro sujeito e isso é uma forma de escravidão.
Foi somente após quase duas décadas de amizade que Liz criou coragem para terminar seu casamento e assumir seu amor por Rayya, na mesma época em que Rayya foi diagnosticada com câncer terminal e recebeu a notícia que teria em torno de 6 meses de vida.
Após isso, ela e Rayya tentaram seguir a vida de uma forma adulta e responsável, uma empreitada quase heroica para um adicto, e conseguiram por um tempo, cada uma a sua maneira, mas elas eram duas pessoas doentes e que chegaram às últimas consequências devido ao vício de ambas , vícios que as levaram a um nível de loucura e insanidade tão grande que fez a autora desejar e planejar a morte da própria companheira.
Elas tiveram uma relação feliz, mas também difícil, regada a muitas drogas, uma separação, uma reconciliação, e uma morte . Rayya Elias faleceu aos 57 anos, de câncer no fígado, em 4 de janeiro de 2018.
Mas esse livro não é sobre o romance que elas tiveram, e sim, sobre um padrão de comportamento doentio que durante toda a vida da autora a fez passar por situações que a levaram (usando suas próprias palavras em seu best- seller) “a mais completa e implacável desvalorização de si mesma”.
A última parte do livro vai tratar do seu resgate . Da sua recuperação . Do seu difícil e, ainda inacabado, processo de cura.
Após a morte de Rayya, Liz voltou para as salas de recuperação que havia frequentando por pouco tempo quando ela e a companheira se separaram pouco antes dela falecer .
São as chamadas salas de recuperação em doze passos. Existem várias pelo mundo, sendo a mais famosa, o AA (Alcoólicos Anônimos), mas também existem os NA (Narcóticos Anônimos) e os grupos de CODA (Codependentes Anônimos ).
Foi nessas reuniões, em comunidade, se reconhecendo impotente diante do vício e se rendendo a um poder superior, que Elisabeth Gilbert vem tentando e, até agora conseguindo, reequilibrar a própria vida, se mantendo em sobriedade há mais de 5 anos, o que para um adicto em amor e sexo e codependente, significa que ela tem provido a si mesma todas as suas necessidades emocionais sem fazer uso de outras pessoas, nem como estimulantes, nem como sedativos.
Também tem respeitado seu corpo e não o tem oferecido a outras pessoas em busca de LAVA.
Tem tratado suas feridas emocionais de abandono e rejeição, cuidado da sua criança interior e, principalmente, tratado a si mesma com dignidade e integridade .
Ela também tem conversado muito com Deus e tem feito dele seu poder superior, ao invés de outras pessoas .

Sobre o poder superior que existe nas salas de recuperação, meu pai, ao receber sua ficha de 45 anos de sobriedade em setembro, fez um discurso à cabeceira de mesa e falou justamente sobre o poder superior que ele encontrou na sala do AA.
Ele disse mais ou menos assim:
“Você pode duvidar da existência de Deus, mas você não tem como duvidar do poder superior que existe nesta sala. Senão, vejamos: o Álcool me dominou por 20 anos. Logo, o Álcool era um poder superior a mim, e eu era impotente diante dele. Cheguei no AA e parei de beber. Assim, no AA existe uma força maior do que o Álcool e, obviamente, maior do que eu. Eis o poder superior do AA.”
"Todo o caminho até o Rio" é um relato sincero e muito corajoso de uma pessoa que vem provar que o vício, seja ele qual for, independe de idade, gênero, classe social, de inteligência, de prestígio ou reputação.
Não importa o quanto você seja bonito, bem sucedido, inteligente , e cheio de qualidades. Ele adoece, degrada e pode levar à loucura e/ou à morte qualquer um que faça dele seu poder superior.
A recuperação é um caminho difícil, mas possível e ela acontece sempre no momento presente. É no AGORA que o adicto pode experimentar a libertação da sua dependência. Não é remoendo o passado de vergonha e arrependimentos ou ansioso por um futuro sem vícios.
Só por hoje e somente NO HOJE a recuperação pode se tornar palpável e acessível.
“Só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida“. Esse é o lema do Codependentes Anônimos.
Só por hoje (um dia de cada vez) eu (não outra pessoa que me sirva de estimulante ou sedativo) sou a pessoa mais importante (os outros também são importantes, mas eu sou a mais importante) da minha vida.
Na minha jornada pessoal, SÓ POR HOJE, eu sou a pessoa mais importante. Aprendi isso também com meu pai .
Aprendi isso também porque cresci dentro das salas de recuperação, frequentando reuniões para familiares de alcoólatras, e de certa forma, também tive a minha vida salva por elas.
📌 Extra
Há uma passagem muito bonita e sensível, onde a autora explica o título do livro que foi retirado de uma metáfora que Rayya utilizava para classificar seus relacionamentos pessoais através do mapa de Nova Iorque.
Ela dizia assim :

“Rayya gostava de usar um mapa do centro de Nova York como a metáfora mais eficiente para as amizades e os relacionamentos dela. O jeito como ela explicava era o seguinte:
Primeiro, dizia, você tem seus amigos Quinta Avenida, que estão bem no centro do mapa. Essas são as pessoas com quem você é completamente artificial. Você só deixa que elas vejam a sua superfície, e elas só deixam que você veja a superfície delas. Esses são seus amigos sociais e seus contatos profissionais. Todo mundo fica tentando impressionar o outro; ninguém conta a verdade. Ninguém do grupo de amigos Quinta Avenida conhece os outros ou quer ser conhecido.
Conforme segue mais para o leste, no entanto, você tem seus amigos Quarta Avenida e Terceira Avenida. Você ainda é educado com essas pessoas, mas permite que elas vejam um pouco mais da sua verdadeira natureza. Você pode brincar, ser um pouco mais descontraído, compartilhar certa intimidade. Você provavelmente conheceu a família delas. Talvez tenha ido ao casamento delas. Você sente um carinho sincero por essas pessoas, mas elas ainda estão na periferia do seu coração.
Se continuar caminhando, vai encontrar seus amigos Segunda Avenida e Primeira Avenida. Agora você está chegando em algum lugar. Essas pessoas realmente conhecem você, e você as conhece. Vocês têm uma história profunda juntas. Talvez sejam vizinhas desde sempre. Talvez tenham viajado juntas. Talvez tenham iniciado um negócio juntas. Vocês foram testemunhas dos sucessos e fracassos uns dos outros, e podem ser sinceros e vulneráveis uns com os outros. Essas são as pessoas em quem você pode confiar, que apoiam você, que sempre estarão presentes.
Mas é só quando chega aos seus amigos das avenidas alfabéticas, Rayya dizia, que você começa a vivenciar a verdadeira intimidade. Seus amigos das avenidas A, B, C e D passaram por muita coisa com você e ainda conseguem te amar. Essas são as pessoas que pagaram sua fiança. Que foram te ver quando você estava na reabilitação, que sabem sobre a traição, que seguraram sua cabeça enquanto você vomitava, em cujo sofá você dormiu durante o divórcio. Elas tiraram a chave do carro da sua mão quando precisaram. Você chorou nos braços delas quando perdeu seu emprego, sua mãe, seu bebê, a cabeça. Vocês se viram em salas de espera de hospital, em funerárias, em clínicas de aborto. Elas ligaram para você quando estavam tendo um ataque de ansiedade no aeroporto. Vocês talvez tenham tido brigas feias ou mal-entendidos ao longo dos anos, e talvez você tenha parado de falar com elas por um tempo. Limites foram ultrapassados e refeitos. Vocês precisaram se perdoar. Esses são os amigos mais reais que você vai ter na vida.
Mas o mapa de Nova York ainda não terminou. Siga em frente. Se você tiver muita sorte, Rayya alegava, talvez encontre uma amizade, só uma, ao longo de toda a sua vida, que tope andar com você por todo o caminho até o rio East. Essa é a amizade que sabe tudo. É a pessoa com quem você nunca poderia fingir, nem se tentasse. É a pessoa capaz de ler seu rosto a três quarteirões de distância e imediatamente saber quando tem algum problema. E sabe aquele último segredo terrível que você esconde de todo mundo desde sempre? O segredo que sempre acreditou que te destruiria se alguém soubesse? Essa pessoa sabe. Ora, talvez ela esteja até envolvida nele. Mesmo assim, não tem nada que possa fazer que te faria perdê-la. Essa pessoa é seu último telefonema no meio do vazio da noite, quando você não tem para onde correr.
Rayya me dizia: “Você é minha amiga ‘todo o caminho até o rio’”. Eu era. Eu era com orgulho. E ela era a minha.”









Gostei muito das suas reflexões sobre o tema, por ela, acabei percebendo algumas coisas que já aconteceram com pessoas próximas. A leitura e a discussão da leitura é sobre isso, ver a sua vida ampliada, dado nome aos sentimentos, comportamentos que vivemos mas talvez ainda não tenhamos percebido.
Adorei, beijão
Parabéns pelo post Naty 👏👏👏👏
Não me recordo de já ter ouvido/lido sobre essa temática. Achei muito interessante, fiz várias reflexões.
Grande abraço 💜