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Somos naturalmente tristes?

E eis que, depois de um longo período, voltei à escrita e tenho tentado retomar o ritmo de leitura. Afinal, temos um projeto em andamento neste blog da obra de Dumas, O Conde de Monte Cristo.



Para tentar me inserir novamente na atmosfera do livro, resolvi rever minhas anotações e as partes grifadas dos capítulos anteriores e me deparei com uma passagem que, à primeira vista, poderia passar despercebida, mas que sob um olhar mais atento, revela uma profundidade filosófica inesperada.


No capítulo 10 da parte 2, Franz está de visita ao esconderijo do Conde na ilha de Monte Cristo e é surpreendido com um convite para provar uma iguaria divina: o haxixe.


O convidado não fica muito entusiasmado com a proposta, mas após elogios exagerados por parte do Conde, é instigado novamente a si deliciar com a sobremesa e a julgar por si mesmo.


É nesse momento, em meio a uma conversa despretensiosa após o jantar, que também somos convidados, não a provar o haxixe, mas a refletir sobre a natureza humana, sobre nossa inclinação à dor, sobre essa misteriosa predisposição que nos aproxima mais do sofrimento do que da alegria.


E como toda leitura é também um encontro entre o texto e o momento vivido, essa passagem me atravessou de maneira particular por estar em meio ao luto pela perda da minha mãe que nos deixou há apenas quinze dias.


O  Conde dirá:

(…) como em todas as coisas, convém habituar os sentidos a uma impressão nova, doce ou violenta, triste ou alegre. Há uma luta da natureza contra essa divina substância, da natureza que não é feita para a alegria e que se mantém aferrada à dor.”

Nessa passagem, o autor nos coloca diante de uma revelação silenciosa: o ser humano tem uma tendência natural à dor, e não à felicidade.


Essa ideia encontra eco em outra passagem do romance, onde ele fala que temos dificuldades em reconhecer a felicidade:


“Não raro passamos ao lado da felicidade sem a ver, sem a olhar, ou, quando a vemos e olhamos, sem a reconhecer.”

A felicidade é, para nós, um esforço, um exercício, e não um estado natural. Tanto que na continuação do primeiro trecho que me levou a essa reflexão, Dumas dirá que


“é preciso que a natureza vencida sucumba nesse combate”.

Há, portanto, uma batalha muda entre aquilo que somos (seres faltantes e insatisfeitos) e aquilo que desejamos ser (seres felizes e plenos) e, mesmo ansiando a felicidade, comumente a colocamos em outro tempo e lugar. A felicidade está sempre em algo distante e escasso.


“Estou feliz, mas ficarei ainda mais feliz quando passar naquele concurso”, “Quando eu realizar esse sonho, aí sim serei feliz “ e outros silogismos do tipo, são constantes em nossas falas e pensamentos .


É o que a a psicologia moderna chamou de “adaptação hedônica“ . Quando, finalmente, “chegamos lá” , criamos um novo distante.


É, então, preciso um esforço consciente para trazer a felicidade para perto de nós, porque não somos naturalmente felizes. Somos naturalmente preocupados e descontentes.


Talvez por isso a felicidade nos pareça tão breve, tão momentânea , quase fugidia. Ela é discreta, e muitas vezes sequer percebemos sua presença. Ela surge, nos atravessa, e passa. Não prestamos atenção , não percebemos que ela se esconde em instantes quase invisíveis enquanto a vida acontece.


Já a tristeza, por menor que seja, encontra em nós morada fácil. Permanece. Se instala. Cuidamos dela. Alimentamos nossas feridas, revisitamos as mesmas ausências, repetimos silenciosamente nossas lamentações. Há, nesse movimento, algo quase materno: protegemos nossa dor, embalamos nossa tristeza e pouco a pouco ela passa a fazer parte de quem somos, ela integra a nossa identidade.


Tenho vivenciado isso em meu processo de luto. É como se ao parar de doer fosse uma segunda despedida. É como se a dor fosse um fio invisível que nos liga à presença que se foi.  Está doendo, então ela (minha mãe) ainda está aqui, de alguma forma. A dor, de algum modo, mantém viva a memória.


E assim a tristeza permanece. Não porque nosso cérebro opera a todo instante em modo sobrevivência, mas porque é cuidada. Porque é habitada.


Mas, voltando à minha pergunta inicial, talvez não sejamos naturalmente tristes, mas naturalmente sensíveis e a sensibilidade é esse território contraditório onde cohabitam a alegria e a tristeza, a perda e o amor, a ausência e a presença, e isso me fez refletir novamente no que disse Clarice Lispector Clarice Lispector em Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres:


Nos piores momentos, lembre-se: quem é capaz de sofrer intensamente, também pode ser capaz de intensa alegria".

É isso que precisamos aprender, a tratar a felicidade da mesma forma que tratamos as nossas dores, regando-a, valorizando-a, tornando-a parte de nós, e entender, como sugerido por Nietzsche em “O Nascimento da tragédia” ao narrar o mito de Sileno (falo dele aqui) que o sofrimento faz parte da condição humana e ninguém escapa dele e que a felicidade não exclui a tristeza, mas que, muitas vezes, nasce justamente dela como a roseira que brota em meio as pedras.


Porque, se a felicidade é o nosso maior desejo nessa vida (“nascemos para sermos felizes”, repetimos isso aos borbotões), a tristeza é quem lhe confere profundidade e, quem sabe, seja exatamente isso que torne a felicidade rara e preciosa porque se não somos naturalmente felizes, é porque ela precisa ser conquistada.


Por enquanto, sigo tentando retomar minha leitura, lembrando-me sempre do que nos ensinaram os estoicos, que apesar da dor ser uma condição humana inescapável, ela pode também ser suportada, compreendida e, com o tempo, ressignificada.


E ao recomeçar a leitura, a vida também vai recomeçando junto .



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