A felicidade que dói : uma reflexão a partir de O conde de Monte Cristo
- A leitora Clássica

- há 3 dias
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Madrugadas insones sempre rendem reflexões profundas. Talvez a calmaria da noite, o silêncio e a aproximação do sono sejam elementos hipnóticos reversos: ao invés de adormecer, despertam as almas inquietas.
Esse estado de semiconsciência, nem vigília plena, nem adormecimento, é o cenário perfeito para que surjam sentimentos, emoções, lembranças e desejos que costumam se petrificar no recôndito do eu, soterrados pelo excesso de lucidez imposto pela vida cotidiana, racional, lógica e consciente demais.
É nesse estado em que me encontro agora. Nem dormindo, nem acordada. Tal qual o narrador de Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, que ao ser capturado pelas garras do sono, deseja soltar o livro que imaginava ainda ter nas mãos e apagar a vela sem perceber que a luz já não estava acesa.
Ao invés de adormecer, despertam.
Vocês já repararam como emoções profundas frequentemente se tocam?
Já choramos de tanto rir em momentos de intensa alegria, assim como rimos de nervoso em situações de aflição. Esse pensamento me faz lembrar que sentir é, em essência, paradoxal.
Clarice Lispector, em A paixão segundo G.H., diz:
“Como poderia eu ter adivinhado, se não sabia que no sofrimento se ria? É que não sabia que se sofria assim. Então havia chamado de alegria o meu mais profundo sofrimento.”
Essa reflexão tem me acompanhado há dias, desde a leitura de uma passagem de O Conde de Monte Cristo:
“— O fato é — disse Dantès — que estou feliz demais agora para estar alegre. Se é o que quer dizer, vizinho, tem razão! A alegria às vezes provoca um efeito estranho, afligindo como o sofrimento. Danglars observou Fernand, cuja natureza impressionável absorvia e transparecia cada emoção. — Então, qual é o problema? — ele perguntou ao noivo. — Será que receia alguma coisa? Parece-me, ao contrário, que tudo caminha segundo seus desejos! — E é justamente isso que me apavora — disse Dantès. — Acho que o homem não é feito para ser feliz com tanta facilidade! A felicidade é como aqueles palácios das ilhas encantadas, cujas portas são vigiadas por dragões. É preciso lutar para conquistá-la, e eu, na verdade, não sei por que mereci a felicidade de ser o marido de Mercedes.”
Nela, o personagem vive um momento de alegria tão intensa que se assemelha ao sofrimento. Uma felicidade tão plena que dói. Essa é a sensação experimentada por Edmond Dantès em seu almoço de noivado, uma sensação que o apavora, pois revela uma consciência inquietante: ao contrário do que costumamos pensar, a alegria extrema não é tranquila nem leve. Ela traz em si o germe da angústia, na medida em que nos expõe, nos desarma e nos torna vulneráveis.
Dessa exposição nasce outro sentimento difícil de suportar: o medo absurdo da perda.
Queremos que aquele instante de júbilo como disse Dostoiévski em Noites Brancas seja eterno, que esse minuto de felicidade plena dure para sempre, mas é um desejo frágil, pois não depende exclusivamente de nós.
Nada garante a continuidade daquilo que nos faz felizes.
É aqui que a alegria extrema e o sofrimento profundo se tocam, porque pertencem a mesma região das vivências humanas: aquele campo específico em que perdemos o controle e somos forçados a lembrar que tudo é transitório, que o que hoje é, amanhã pode não ser.
É por isso que Dantès, no romance de Dumas, se vê apavorado diante da perfeição de seu momento de vida: o emprego dos sonhos, o respeito e a admiração dos seus pares e o amor correspondido da mulher amada. Ele se apavora não porque algo estivesse errado, não havia nenhuma ameaça visível, mas justamente porque tudo estava bom demais. A perfeição do instante o confronta com uma evidência insuportável: tudo aquilo poderia, simplesmente, acabar.
A felicidade intensa dói porque nos lembra que viver não nos oferece garantias e isso é belo e também trágico, mas como nos lembra Rainer Maria Rilke em As elegias de Duino :
“Pois o belo não é senão o começo do terrível”.
O belo e o trágico , a alegria e a dor , o riso e o choro, o êxtase e a angústia, todos eles participam da mesma estrutura existencial marcada pela instabilidade e pela finitude e é justamente essa incerteza que confere densidade à experiência de existir.









Excelente reflexão Naty 💜