Dias perfeitos (Wim Wenders)
- A leitora Clássica

- 13 de jan. de 2025
- 4 min de leitura

O que torna um dia perfeito ?
Assisti ao filme "Dias perfeitos" do diretor alemão Wim Wenders recentemente e o longa se tornou o meu filme favorito de 2024.
O que mais me cativa nesse filme é que ele é composto de silêncios. Seus parcos diálogos nos dão oportunidade de prestar atenção nos tons da paisagem, nas luzes e também nas sombras que elas formam, na música, na fotografia e até mesmo nas feições do protagonista que dizem muito sem dizer quase nada.
Hirayama é um homem simples que ganha a vida limpando banheiros públicos em Tóquio. O enredo do filme se dá em acompanharmos a sua rotina sempre a mesma que se inicia com o varrer da rua na sua vizinhança (seu despertador nada convencional), momento em que ele levanta, rega as plantas, escova os dentes, coloca a sua farda, pega um café na máquina que fica no estacionamento do seu prédio, entra na sua van, escolhe uma fita cassete e dirige ouvindo The Animals, Van Morrison, Rolling Stones, Lou Reed, Nina Simone, entre outros.
Á propósito, o título do filme faz referência à música Perfect Day do Reed que fala sobre um dia passado junto à pessoa amada, alimentando animais no zoológico, vendo um filme, tomando uma bebida no parque e depois indo para casa.
Algo que me chamou bastante atenção foi a maneira minuciosa, cuidadosa e concentrada com a qual Hirayama realiza seu trabalho. Ele não está lá pensando em quanto tempo falta para acabar o expediente. Ele apenas faz o que precisa fazer naquele momento , dedicando a cada ato uma atenção plena.
Isso não significa que o filme passa uma glamourização de uma rotina exaustiva de trabalho, mas o tom de que a vida acontece no agora está sempre presente.
Ter presença no presente é algo que, para mim, os orientais sabem muito mais do que nós e Hirayama sabe melhor que ninguém.
Esse é, inclusive, um ensinamento que ele passa para a sua sobrinha que o visita de surpresa.
"Da próxima vez é da próxima vez. Agora é agora"
Essa filosofia de vida deriva de um termo japonês, "Komorebi", que significa "raios de sol através das folhas ". Ele descreve o momento exato em que a luz passa pelas folhas das árvores criando sombras no chão. Para os japoneses, esse momento é único e irrepetível e é um convite à contemplação e à conexão com a natureza.
Komorebi fala de agora, do momento presente, da pausa para observar o mundo ao redor.
No filme, essas sombras formadas pela luz ao passar pelas copas das árvores são eternizadas através das fotografias que o protagonista tira na sua câmera analógica.
Aliás, nem só de limpar banheiros públicos vive Hirayama. Ele é amante da literatura, da música e da fotografia.
Seus "dias perfeitos" terminam sempre na companhia de um livro.

Palmeiras Selvagens de William Faulkner, Árvore de Aya Koda e Eleven de Patrícia Highsmith são os títulos que fazem companhia a Hirayama nas noites de solitude em sua modesta residência ao estilo japonês, sem muitos móveis, coberto com um tatame que favorece a apreciação do toque dos pés descalços e uma iluminação limite.
A estética da residência de Hirayama lembrou-me e bastante o ensaio de Junichiro Tanizaki, "Em louvor da sombra" , que já tem resenha aqui no blog.
Tanizaki nos fala nesse ensaio que para os orientais, de um modo geral, há outros prazeres estéticos para além do visual. Eles aprenderam a extrair a beleza através das sombras, diferente de nós ocidentais, que utilizamos a luminosidade em tudo.
Um tema também presente nesse ensaio e que é explorado no filme é a dualidade entre o antigo e o moderno.
Hirayama escuta suas músicas em fitas cassete bem ao estilo anos 80, o que choca sua sobrinha, acostumada a ouvir músicas em streamings nos seu iPhone.
"Dias perfeitos" fala também das pequenas gentilezas com as quais somos presenteados diariamente e nem percebemos. Ao terminar sua jornada de trabalho, o protagonista come costumeiramente no mesmo estabelecimento e é servido sempre acompanhado da mesma frase:
" Pelo seu trabalho duro."
Achei isso de uma sensibilidade incrível.
Mas apesar da rotina rigorosamente a mesma, o filme também mostra que a vida, com seus encontros e desencontros, é feita também de imprevisibilidades, como a chegada inesperada de sua sobrinha que não via desde criança e o reencontro com a sua irmã.
Esse reencontro revela feridas que o protagonista carrega consigo e que provocaram a quebra dos vínculos familiares. Ele abraça a irmã e chora.
Mas amanhã "é um novo amanhecer, é um novo dia, é uma nova vida para mim, sim . E estou me sentindo bem" como diz a tradução da música Feeling Good de Nina Simone.
No final das contas, o dia para ser perfeito, não precisa ser extraordinário. Ele só precisa ser vivido. Algo que para esse tempo em que estamos imersos nessa perspectiva de uma vida superprodutiva e hiperconectada, é difícil perceber.
"Dias perfeitos" me lembra que é possível trazer a felicidade para o momento presente e que essa ideia que o capitalismo nos vende diariamente de que só seremos felizes em outro momento, fazendo outra coisa, sendo outra pessoa, não é verdade.
Com o tempo aprendemos que os dias perfeitos são os mais comuns.
Extras:
O filme encontra-se disponível nas plataformas: MUBI, PRIME VÍDEO.
Tem no YouTube o filme completo e gratuito, porém sem legendas :
No Spotify tem uma playlist com a trilha sonora do filme e que é maravilhosa:



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Parabéns e obrigado por sua reflexão ao filme. Me fez refletir.
Olá! Conheci hoje sua página e gostei muito da forma que você descreveu o livro "Paixão Simples" de Annie Ernaux, e é muito interessante a forma que você descreve esse filme. Não conhecia o filme, vou assistir.
Não conhecia esse filme Naty, amei a dica ☺️